Arte e comunicação na década de 1980 – Link para download do vídeo

Durante a 10ª edição da Bienal Internacional de São Paulo, em 1969, alguns artistas, inclusive de outros países, boicotaram a Bienal cancelando as suas vindas e, consequentemente, a exposição das suas obras, deixando as salas da Bienal praticamente vazias. Estes boicote à Bienal foi um protesto à ditadura militar, que censurava a arte e a liberdade de criação, que, no Brasil, durou desde 1964 até 1985. Um concurso de charges foi promovido pela Fundação, uma forma de passar por cima da ordem vigente, um grupo de cartunistas criaram charges em resposta à censura e para falar sobre o boicote.

Charge de Mino. A Tribuna (8 de outubro de 1969)
Charge de Messias. A Gazeta Esportiva (16 de outubro de 1969)
Cartum por Messias. A Gazeta Esportiva (28 de outubro de 1969)

É! Mas chega de história. Mudando o foco para arte: já durante esta edição da bienal existia uma sala exclusiva para arte e tecnologia. Sim, era pequena, mas ali os primeiros artistas já mostravam do quanto poderiam fazer, apesar do contexto, nada animador diga-se de passagem, da época.

Na década de 70 o Brasil, ainda sofrendo com a ditadura militar, foi criado, em 1970, o grupo JACs (Jovens Artistas Contemporâneos), estes jovens artistas já usavam e abusavam dos conceitos sobre objetos de arte, criavam trabalhos de performance, happening e a arte em processo e utilização de novos meios de comunicação… Isso mesmo! Faziam uso de postais, fotografias, offset, serigrafia, diapositivos e até xerox. Nessa época o diretor do Museu de Arte Contemporânea era Walter Zanini, ele mesmo incentivou propostas como a da “Prospectiva 74” e “Poéticas Visuais”, de 1977.

Lá pelo fim dos anos 70 começaram as primeiras experiências com arte-comunição no Brasil com trabalhos como “Satellite Arts Projects: a space with no geographical boundaries”, em 1977, de Kit Galloway e Sherrie Rabinowitz e “La Plissure Du Texte: a planetary fairy tale”, recital coletivo por meio de videotexto, de Roy Ascott. A ideia era romper com a forma “objetiva” de se fazer arte e explorar aspectos onipresentes e imateriais das práticas artísticas. Vários brasileiros artistas ajudaram a dar vida a este projeto como Artur Matuck, José Wagner Garcia, Mário Ramiro, Carlos Fadon Vicente, Eduardo Kac, Julio Plaza, Milton Sogabe, Paulo Laurentiz, Gilberto Prado, Paulo Bruscky. Faziam uso de telefone, fax, televisão de varredura lenta (slow-scan tv), rádio, videotexto, rede de computadores pessoais, satélites (mais raramente).

Satellite art, “Mobile Image”, 1977, de Kit Galloway e Sherrie Rabinowitz
MediaCirkuito, Imagem ecrânica de varredura lenta, Artur Matuck
Mário Ramiro

Durante o evento “Retrato suposto-Rosto Roto”, em 1988, Mário Ramiro transmitiu  via fax de São Paulo para o Rio de Janeiro um repertório gráfico de traços fisionômico (boca, nariz, olhos) que foram recebido pelo artista Eduardo Kac.

 

“Estes artistas procuraram criar projetos de ordem global, privilegiando a arte como processo comunicativo” – Priscila Arantes, Arte e mídia no Brasil: perspectivas da estética digital.

 

Pulsar, poema de Augusto de Campos. Um dos trabalho da computer arte exposto no evento “Level 5”, em 1984.

“Na versão original, o texto, em letras brancas sobre um fundo negro, tinha os caracteres “o” e “e” substituídos por luas e estrelas que, na versão vídeo-computadorizada, aumentavam e diminuíam de tamanho, acompanhando a trilha sonora.” – Priscila Arantes

Anos 80 tiveram uma grande representação em termos de experimentos artísticos com arte e meios de comunicação e tecnológicos. Tinham trabalhos com vídeos, holografia e mais xerox. Nessa atmosfera de novidades surge a Computer Art, impulsionada, principalmente, pelo evento “Level 5”, em 1984. Tudo isso fazia parte de uma estética mais underground, onde se tinha pouquíssimo incentivo das instituições brasileiras ou aceitabilidade do público.